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Varizes: o que são, porque aparecem e quando ir ao médico

Varizes explicadas: porque falham as válvulas, sintomas ao fim do dia, fases CEAP C0–C6, riscos, varizes na gravidez, derrames e quando ir ao médico no SNS.

30–50 %
adultos com varizes; nas mulheres, cerca de 3 casos por cada 1 nos homens
2–5 %
casos de varizes que chegam a alterações da pele ou úlcera
80 %
máximo estimado de grávidas com pernas inchadas, sobretudo no 3.º trimestre
Autoria: Redação Pernas Leves No ar desde: Revisto em:

Resposta curta: varizes são veias debaixo da pele que ficaram dilatadas de forma permanente, com mais de 3 mm de diâmetro. Aparecem quando as válvulas dentro da veia deixam de fechar bem e o sangue volta para baixo. Estima-se que afetem 30 a 50 % dos adultos, e só 2 a 5 % chegam a feridas ou alterações da pele (Ordem dos Farmacêuticos, 2017).

Nas perguntas que os portugueses deixam em fóruns de saúde, a primeira dúvida raramente é «o que é uma variz». É «que fazer para eliminar», e o passo que muitos já deram é marcar consulta no médico de família. As respostas seguem a ordem dessas dúvidas.

O que são varizes e o que é a doença venosa crónica?

Varizes são dilatações permanentes das veias subcutâneas das pernas com diâmetro superior a 3 mm. São a forma mais comum de uma condição mais larga, a doença venosa crónica (DVC).

A doença venosa crónica é um conjunto de alterações, de longa duração, em que as veias já não conseguem levar o sangue num só sentido, das pernas para o coração. A definição é da publicação técnica do Centro de Informação do Medicamento da Ordem dos Farmacêuticos (2017). Os termos «veias varicosas» e «insuficiência venosa» aparecem muitas vezes como sinónimos, mas não são a mesma coisa.

Uma variz é o que se vê. A insuficiência venosa é o mau funcionamento que está por baixo, e pode dar queixas mesmo sem nenhuma veia saliente.

Em Portugal, segundo o presidente da Sociedade Portuguesa de Cirurgia Cardio-Torácica e Vascular, citado pelo Atlas da Saúde em junho de 2021, cerca de 3 milhões de pessoas vivem com doença venosa crónica. É uma estimativa de especialista, não um censo oficial.

Porque aparecem as varizes? O papel das válvulas

As varizes aparecem porque as válvulas das veias deixam de fechar. Cada veia da perna tem pequenas válvulas que funcionam como portas de sentido único. Quando a parede da veia perde elasticidade e essas válvulas falham, o sangue reflui das veias profundas para as superficiais e a pressão dentro delas sobe (Ordem dos Farmacêuticos, 2017).

Com esta pressão elevada dentro da veia, ao longo de anos, a veia alarga e fica visível. Os médicos chamam a este refluxo «refluxo valvular», e é ele que o eco-Doppler procura na consulta.

Este mecanismo explica também uma coisa prática. O problema está na válvula, dentro da perna. Um creme aplicado na pele não repara essa válvula.

Que sintomas dão as varizes?

Os sintomas mais comuns são sensação de peso nas pernas, dor, ardor ou formigueiro, comichão, inchaço e cãibras. A lista é a do documento da Ordem dos Farmacêuticos (2017), e bate com o modo como as pessoas o dizem nos fóruns portugueses: «pernas muito pesadas», «dói-me do joelho ao tornozelo», «passo a mão e a veia parece inchada».

Há um padrão típico, descrito na mesma fonte. As queixas pioram:

  • ao fim do dia;
  • depois de muitas horas seguidas em pé;
  • com tempo quente;
  • em certas alturas do ciclo menstrual.

E aliviam quando as pernas ficam elevadas. Quando o inchaço dos tornozelos se torna habitual, a escala médica já o regista como fase própria, a C3.

É possível ter todas estas queixas sem nenhuma veia visível. Nesse caso a escala médica fala em fase C0 sintomática. No programa Vein Consult, que avaliou 91 545 doentes em clínica geral, 19,7 % estavam nesta situação (Rabe e colegas, International Angiology, 2012). Se o peso nas pernas não vem com veias salientes, as causas possíveis são mais largas — a página sobre pernas cansadas e inchadas sem varizes explica-as.

As varizes causam síndrome das pernas inquietas?

A resposta honesta é que não se sabe. Uma revisão sistemática de 2025 juntou 10 estudos: 7 encontraram associação entre síndrome das pernas inquietas e doença venosa, 3 não encontraram (Alyahya e colegas, Journal of Medicine and Life).

Os próprios autores recusam falar em causa e efeito, porque os estudos são muito diferentes entre si. Alguns doentes melhoraram das pernas inquietas depois de tratar as veias, mas isso não prova que as varizes fossem a origem.

Em que fase estão as varizes? A escala CEAP de C0 a C6

A escala CEAP é a classificação internacional que o médico usa para descrever a doença venosa, de C0 (sem sinais visíveis) a C6 (úlcera aberta). Saber a letra ajuda a perceber a conversa na consulta e o relatório do eco-Doppler.

Fonte: Ordem dos Farmacêuticos, 2017; atualização CEAP de 2020 (Lurie e colegas, DOI 10.1016/j.jvsv.2019.12.075).

A revisão de 2020 manteve as sete classes e acrescentou pormenor. Criou a subclasse C4c, para a chamada «corona phlebectatica», uma coroa de pequenas veias dilatadas. Juntou também a letra «r», que marca varizes que voltaram depois de um tratamento.

A classificação usa ainda o sufixo «s» (com sintomas) ou «a» (sem sintomas). Uma pessoa com varizes e peso nas pernas pode aparecer como «C2s».

Quem tem mais risco de ter varizes?

Os fatores de risco com mais consenso são a história familiar, a idade, o sexo feminino, a gravidez, a obesidade e passar muitas horas em pé. Outros, como calor, vida sedentária, tabaco e trabalho sentado, aparecem em alguns estudos mas não em todos (Ordem dos Farmacêuticos, 2017).

Fontes: Ordem dos Farmacêuticos, 2017; Rabe e colegas, Journal of Vascular Surgery, 2010; Evans e colegas, Journal of Epidemiology and Community Health, 1999.

A nuance do sexo merece uma linha. No Edinburgh Vein Study, com 1 566 adultos dos 18 aos 64 anos, as varizes dos troncos principais foram encontradas em cerca de 40 % dos homens e 32 % das mulheres. As varizes não são «coisa de mulher». Os homens também as têm.

As varizes pioram sem tratamento?

Em parte dos casos pioram, mas devagar e não em todos. O Bonn Vein Study II seguiu uma população alemã durante 6,6 anos. Entre quem tinha varizes simples (C2) no início, 19,8 % passaram para uma fase mais avançada quando as varizes não envolviam a veia safena, e 31,8 % quando a safena estava envolvida (Rabe e colegas, 2010).

No mesmo estudo, três fatores pesaram na progressão:

  • idade, com mais 2 % de risco por cada ano;
  • obesidade, com risco 3,47 vezes maior;
  • sensação de pernas inchadas, com risco 1,68 vezes maior.

A idade também muda o quadro. A diretriz europeia de 2022 da European Society for Vascular Surgery (ESVS) cita dados dos EUA em que as pessoas com mais de 65 anos tinham mais alterações da pele (12 % contra 6 %) e mais úlceras (5 % contra 2 %) do que as mais novas.

Visto ao contrário, a maioria das pessoas com varizes nunca chega a uma úlcera.

Derrames nas pernas: são varizes?

Os derrames são telangiectasias, pequenas veias dentro da própria pele com menos de 1 mm de diâmetro. Não são varizes. Na escala CEAP ficam na fase C1, junto com as veias reticulares, azuladas e com menos de 3 mm (Ordem dos Farmacêuticos, 2017).

São muito frequentes. No Edinburgh Vein Study, mais de 80 % dos adultos tinham derrames ou veias reticulares ligeiras. Aparecem muitas vezes à volta dos tornozelos e costumam ser os primeiros sinais visíveis.

A diferença prática está no incómodo. Se os derrames não dão queixas, não há critério clínico que obrigue a tratá-los. Quando incomodam pelo aspeto («não consigo usar calções», escreve-se nos fóruns), a conversa passa a ser de tratamento, e a opção de que mais se fala nas perguntas públicas é a escleroterapia, conhecida em Portugal como «secagem». A página sobre o tratamento de varizes em Portugal detalha métodos, sessões e preços.

Varizes na gravidez: porque aparecem e o que é seguro

A gravidez aumenta os derrames, as veias reticulares e as varizes, e o edema das pernas pode afetar até 80 % das grávidas, sobretudo no terceiro trimestre. Os dados são da diretriz ESVS de 2022, secção sobre gravidez.

Quem já tinha tendência nota a diferença. Num fórum português, uma grávida liga as duas coisas: muitas horas em pé no trabalho e a barriga a crescer, e as pernas «uma desgraça». Algumas mulheres desenvolvem também varizes vulvares, que tendem a agravar-se em cada gravidez seguinte.

Há uma boa notícia com base em dados. Na maioria das mulheres, os derrames, as veias reticulares e as varizes regridem pelo menos em parte nos primeiros meses depois do parto (ESVS, 2022).

O que se usa e o que não se faz durante a gravidez

A regra é simples. Durante a gravidez trata-se o desconforto e protege-se a perna. A decisão de tratar a veia fica para depois, quando se vê o que regrediu sozinho.

O que podem fazer as meias, os cremes e os comprimidos?

Podem aliviar queixas. Não fazem desaparecer uma variz já formada.

Para quem tem doença venosa com sintomas, a diretriz ESVS de 2022 recomenda meias de compressão elástica com pelo menos 15 mmHg no tornozelo, para reduzir os sintomas (Recomendação 9, classe I, nível B). Já como único tratamento das varizes visíveis, a revisão Cochrane de 2021 achou a evidência insuficiente para confirmar que funcionam.

Convém também não confundir meias de compressão com meias de descanso. As de descanso apertam por igual em toda a perna e não são dispositivo médico, como explica o site português de cirurgia vascular cirurgia-vascular.pt. O guia de meias de compressão para varizes reúne classes, tamanhos e preços.

Quanto aos comprimidos venotónicos, como a diosmina, a revisão Cochrane de 2020 encontrou evidência de certeza moderada de que reduzem ligeiramente o inchaço, e efeito limitado nos outros sintomas. Na página sobre cremes e venotónicos para varizes ficam as fichas aprovadas pelo Infarmed e os preços.

Quando ir ao médico por causa das varizes?

Vale a pena marcar consulta quando as varizes dão queixas, quando a pele por cima muda ou quando já houve uma ferida. É o que dizem os critérios de encaminhamento do NICE (orientação CG168, 2013), o organismo britânico que define normas clínicas. Não localizámos uma norma da DGS equivalente sobre varizes.

Os critérios NICE para envio a um serviço vascular são estes:

  1. varizes com sintomas, mesmo que já tenham sido tratadas antes;
  2. alterações da pele causadas pelas varizes, como pele escurecida ou eczema venoso;
  3. tromboflebite superficial, isto é, veia dura, vermelha e dolorosa;
  4. úlcera venosa aberta;
  5. úlcera venosa que já cicatrizou.

Varizes sem nenhuma queixa não constam desta lista. Se sangram, o envio é imediato.

Por onde começa o caminho no SNS

Em Portugal a porta de entrada é o médico de família, no centro de saúde. É também o que as pessoas fazem por instinto. «Marquei consulta no médico de família» é o passo que aparece descrito nas perguntas públicas sobre varizes.

O médico de família avalia as queixas e, se houver critério, referencia para a consulta de cirurgia vascular do hospital. O exame que confirma o refluxo é o eco-Doppler venoso dos membros inferiores, que em Portugal tem indicações técnicas definidas na Norma 030/2011 da DGS. Quem quiser tempos de espera e alternativas no privado encontra-os na página sobre o tratamento.

Sinais de alarme: quando não se espera pela consulta

Há situações em que as varizes ou a perna deixam de ser assunto de consulta marcada. Em caso de dúvida, a linha SNS 24 (808 24 24 24) faz triagem 24 horas por dia; em emergência, o número é o 112.

  • Perna inchada de repente. Dor ou latejar persistente numa só perna, em geral na barriga da perna, com inchaço, pele quente ou avermelhada, pode ser trombose venosa profunda (TVP). Ligar para o SNS 24 no próprio dia (NHS, 2026).
  • Falta de ar. Falta de ar, dor no peito, tosse com sangue, tonturas ou desmaio, com ou sem dor na perna, podem indicar um coágulo no pulmão. Ligar 112 sem esperar.
  • Variz a sangrar. Elevar logo a perna e fazer pressão direta e firme sobre o ponto que sangra. A hemorragia pode ser abundante e acontece muitas vezes no duche quente ou durante o sono, sobretudo em pessoas idosas que vivem sós. Mesmo que pare, é caso de avaliação urgente (ESVS, Recomendação 89).
  • Cordão doloroso. Uma veia dura, vermelha, quente e dorida por cima de uma variz é tromboflebite superficial. O coágulo pode estender-se às veias profundas, e a diretriz ESVS considera o eco-Doppler obrigatório nesta situação. Pede avaliação médica sem adiar, pelo SNS 24 ou pelo médico de família.
  • Ferida que não fecha. Uma ferida perto do tornozelo, ou pele que escurece e endurece, pede consulta no médico de família sem adiar.

Quem vive sozinho e tem varizes grossas ganha em saber de antemão o gesto certo para uma hemorragia. Perna para cima, pressão em cima do ponto.

Escala CEAP e fatores de risco: o eco-Doppler tem a última palavra

Esta página explica o que acontece dentro da veia, como se lê a escala CEAP, que fatores pesam de facto e em que momento as queixas justificam médico. Os números vêm de estudos de população e de diretrizes, e cada um tem a fonte ao lado.

Não substitui o exame. Duas pernas com o mesmo aspeto podem ter refluxos muito diferentes, e só o eco-Doppler mostra qual. Também não indicamos medicamentos na gravidez nem dizemos a ninguém se deve ou não operar. Essa conversa é com o médico de família e, depois, com a cirurgia vascular. Para ver todos os temas do site, há a página inicial do Pernas Leves.

Bonn Vein Study: percentagens de grupo, não prazos

Seria fácil escrever «em cinco anos as varizes passam à fase seguinte». Os estudos não dizem isso.

O Bonn Vein Study II dá percentagens de grupo: cerca de um quinto a um terço das pessoas com varizes simples avançou de fase ao longo de 6,6 anos. Para uma pessoa concreta, com a sua idade, o seu peso e o seu trabalho, esse número não se transforma num prazo. Preferimos mostrar o que pesa na progressão a inventar um calendário.

Fontes utilizadas 16

Perguntas frequentes

Os homens também têm varizes?

Sim. No Edinburgh Vein Study, as varizes dos troncos principais foram encontradas em cerca de 40 % dos homens e 32 % das mulheres dos 18 aos 64 anos. A síntese da Ordem dos Farmacêuticos dá cerca de 3 mulheres por cada homem, e daí vem a ideia de que é um problema feminino. Os números mudam com o método de cada estudo.

O calor piora as varizes?

As queixas pioram com o tempo quente, segundo a Ordem dos Farmacêuticos. O peso, o inchaço e a dor tendem a aumentar no verão e depois de muitas horas em pé, e aliviam com as pernas elevadas.

As varizes que apareceram na gravidez desaparecem?

Em muitas mulheres regridem pelo menos em parte nos primeiros meses após o parto, segundo a diretriz ESVS de 2022. Por isso qualquer tratamento às veias que ficarem se adia 3 a 6 meses depois do parto.

Varizes sem dor precisam de tratamento?

Os critérios de envio do NICE para cirurgia vascular não incluem varizes sem queixas. Podem ser tratadas por razões estéticas, mas isso é escolha da pessoa, não necessidade clínica. Se surgirem sintomas, pele escurecida ou ferida, a avaliação passa a ser recomendada.

Os derrames transformam-se em varizes?

Derrames e varizes são fases diferentes da escala CEAP (C1 e C2) e podem existir juntos na mesma perna. Os estudos usados nesta página não medem quantos derrames evoluem para varizes, por isso não damos um número.

Um creme pode fazer desaparecer as varizes?

Não há evidência de que um creme elimine uma variz. O defeito está nas válvulas, dentro da perna. Os venotónicos em comprimido mostraram, numa revisão Cochrane de 2020, uma redução ligeira do inchaço com certeza moderada, e efeito limitado nos restantes sintomas.