Resposta curta: nenhum creme nem comprimido elimina varizes. Na farmácia há medicamentos não sujeitos a receita médica (MNSRM) com indicação aprovada pelo Infarmed para os sintomas — peso, dor, cansaço, inchaço — e há cosméticos, que não podem alegar tratamento. Fora da farmácia vendem-se «cremes milagrosos» sem ficha nenhuma. A revisão Cochrane de 13 estudos com 1 245 pessoas concluiu que os venotónicos orais provavelmente reduzem ligeiramente o inchaço, e pouco mais.
Nas farmácias online consultadas a 24 de setembro de 2026, os géis com registo de medicamento custavam entre 7,20 € e 9,50 €, e os comprimidos entre 17,90 € e 23,15 €. O creme vendido online que analisámos pedia 39 €.
O que se vende como «creme para varizes» em Portugal?
Quem pede um creme para varizes na farmácia ou pesquisa online encontra três coisas diferentes, embora as embalagens se pareçam. A diferença entre elas está no registo, e o registo decide o que o rótulo pode prometer.
- Medicamentos MNSRM. Comprimidos venotónicos (diosmina, Daflon, Cyclo 3) e géis tópicos (Hirudoid, Thrombocid, Venosmil gel). Têm folheto aprovado pelo Infarmed, e a indicação é o alívio de sintomas ou um papel adjuvante, nunca fazer desaparecer a variz.
- Cosméticos. Géis e cremes «refrescantes» para pernas. Não passam por avaliação de eficácia como medicamento e, segundo o manual europeu de produtos-fronteira, não podem apresentar-se como tratamento de pernas inchadas.
- Cremes de venda online. Produtos vendidos por anúncio, com página própria e desconto em destaque. No caso que verificámos, não encontrámos registo de medicamento nem composição com dosagens.
Há ainda o que as pessoas compram por hábito. Num fórum português de mães, alguém escreveu sobre um gel com eucalipto: «faz acalmar logo o peso das pernas». A sensação de frescura é real. Mas é pele. Não mede o que acontece dentro da veia.
A variz é uma veia com válvulas que deixaram de fechar bem, e isso passa-se abaixo da pele. O que é uma variz, porque aparece e em que fase está explica-se na página sobre o que são as varizes.
O que a ficha do Infarmed permite dizer de cada produto
O folheto informativo aprovado pelo Infarmed é o limite legal do que um medicamento pode prometer. Nada acima disso. No folheto do Daflon 500 mg, aprovado em 01-02-2019, não aparecem as palavras «elimina», «cura» ou «reverte» — o objeto é sempre o sintoma. A tabela resume o que cada ficha diz e o que não diz.
Fontes da tabela: folhetos do Daflon 500 mg (Infarmed, 2019), do Cyclo 3 (2023) e do Thrombocid gel (2024); páginas do titular Faes Farma para os dois Venosmil; ficha de farmácia para o Hirudoid.
Daflon para que serve, segundo o folheto
O Daflon 500 mg é uma fração flavonóica purificada micronizada, com 450 mg de diosmina e 50 mg de flavonoides expressos em hesperidina por comprimido. O folheto aprovado pelo Infarmed indica-o para os sintomas da insuficiência venosa e para a crise hemorroidária. A dose indicada é de 2 comprimidos por dia.
Antes de comprar, leia três avisos. Na gravidez, «é preferível evitar»; na amamentação, o uso «não é recomendado» por falta de dados. Os efeitos mais frequentes são diarreia, dispepsia, náuseas e vómitos. Se o problema não melhorar ou piorar ao fim de 7 dias, o folheto manda consultar um médico.
Cyclo 3: o aviso sobre a pele
O folheto do Cyclo 3, aprovado a 01-03-2023, indica 3 cápsulas por dia e dá três prazos diferentes. Ao fim de 14 dias sem melhoria, médico. Se em 3 dias houver mais inchaço apesar de elevar as pernas, ou mais dor, médico.
O terceiro aviso vale em qualquer momento. Refere-se à pele das pernas acastanhada ou castanho-avermelhada, escamosa, seca ou com comichão. Estas mudanças não são um efeito que se trate com mais cápsulas. Por conter vitamina C, o Cyclo 3 está contraindicado na talassemia, na hemocromatose e na anemia sideroblástica.
Géis de farmácia: a palavra que se repete é «adjuvante»
O Thrombocid gel, o Hirudoid e o Venosmil gel têm registo de medicamento. Nos três, a indicação para as veias vem com a palavra «adjuvante», ou seja, um complemento a outro tratamento. O folheto do Thrombocid aconselha aplicar em camada fina, sem fricção, várias vezes ao dia.
O Venosmil gel mostra que o formato «gel para pernas» não define o estatuto. Com 20 mg de hidrosmina por grama, está registado como medicamento pela Faes Farma Portugal, e não como cosmético. Na prateleira pode estar ao lado de um gel refrescante com aspeto semelhante e regras completamente diferentes.
Os venotónicos funcionam? O que mediram os estudos
Os venotónicos orais, também chamados flebotónicos, têm um efeito medido. É pequeno. A revisão Cochrane de Martinez-Zapata e colegas (CD003229, 2020) juntou 56 estudos com 7 690 participantes, com idade média de 50 anos. Nos 13 estudos com 1 245 pessoas que mediram o edema, os flebotónicos «provavelmente reduzem ligeiramente» o inchaço face ao placebo.
No resto, menos ainda. Na qualidade de vida, houve «pouca ou nenhuma diferença». Na cicatrização de úlceras venosas (6 estudos, 461 pessoas), o efeito pode ser pouco ou nenhum, com evidência de baixa certeza. E os efeitos gastrointestinais foram os mais relatados, com um provável ligeiro aumento dos eventos adversos em relação ao placebo.
Castanheiro-da-índia: dor menor, estudos antigos
O extrato de semente de castanheiro-da-índia (Aesculus hippocastanum), padronizado em escina, tem uma revisão Cochrane própria (CD003230, Pittler e Ernst). Reduziu a dor na perna em 6 de 7 ensaios com placebo. Em 6 ensaios com 502 participantes, o volume da perna ficou em média 32,1 ml abaixo do grupo placebo.
Os efeitos adversos foram «geralmente ligeiros e pouco frequentes», como queixas digestivas, tonturas, náuseas, dores de cabeça e comichão. A última pesquisa desta revisão data de junho de 2012. São mais de 13 anos.
Estes resultados foram obtidos com extrato tomado por via oral. Um creme com castanheiro-da-índia no rótulo não herda os resultados do comprimido.
Causa-efeito não estabelecida: o parecer da EFSA
A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) avaliou em 2014 duas alegações para a combinação de diosmina, troxerutina e hesperidina. No parecer EFSA Journal 2014;12(1):3511, sobre a «manutenção da permeabilidade venoso-capilar normal», a conclusão foi que não se estabeleceu relação causa-efeito. O parecer-irmão 3512, sobre o «tónus venoso normal», rejeitou pela mesma razão. Faltavam estudos em humanos.
Há também ingredientes botânicos em limbo. O castanheiro-da-índia, a Centella asiatica e o Ruscus aculeatus constam do registo europeu de alegações «on-hold» para saúde venosa, à espera de avaliação desde 2010–2012. Enquanto esperam, essas alegações ainda podem ser usadas em suplementos, mas nenhuma foi avaliada nem aprovada pela EFSA. Um suplemento ou «creme natural para varizes» com estes nomes não tem, por isso, nenhuma alegação de saúde venosa aprovada a que se possa encostar.
Creme para varizes funciona? O que se sabe da aplicação na pele
Para os cremes e géis, a base de evidência é mais estreita do que para os comprimidos. As duas revisões Cochrane citadas avaliaram medicamentos e extratos tomados por via oral. Nas fontes reunidas para esta página não encontrámos uma revisão sistemática dedicada a cremes venosos com resultados comparáveis.
O que existe de oficial são os folhetos, e os folhetos dos géis registados dizem «adjuvante» e falam de sintomas ou do «síndroma varicoso», sem nunca prometer mudar a veia dilatada. Um creme para pernas cansadas e varizes, com o melhor registo possível, promete alívio do desconforto. Não promete fechar uma válvula nem encolher uma veia.
O creme não é inútil. Quem tem peso nas pernas ao fim do dia pode sentir alívio com um gel, e isso conta. O que convém é pagar pelo alívio o preço de alívio, e procurar outra solução quando o objetivo é a veia em si. As causas de peso e inchaço que não vêm das veias estão em causas de pernas cansadas e inchadas.
Creme para varizes e derrames: algum creme apaga os derrames?
Nenhum dos seis folhetos e fichas de produto analisados indica os derrames (os vasinhos finos, vermelhos ou arroxeados) como indicação. Nenhum promete fazê-los desaparecer.
Há uma confusão de palavras que vale conhecer. O folheto do Thrombocid gel usa «derrames» no sentido de hematomas, como complicação do tratamento com injetáveis, ao lado de tromboflebites superficiais. Não se refere aos derrames das pernas que as pessoas querem apagar.
Os derrames tratam-se com procedimentos como a escleroterapia, conhecida por «secagem». Técnicas, preços e o caminho no SNS estão na página sobre tratamento de varizes em Portugal.
Cosmético ou medicamento: como ver a diferença na embalagem
Um cosmético não pode apresentar-se como tratamento de uma doença. O manual de produtos-fronteira do grupo de trabalho europeu sobre produtos cosméticos (versão 5.3, novembro de 2023), na secção 3.3.20, trata exatamente dos produtos «para aliviar pernas cansadas, inchadas e pesadas».
O manual é claro. Um produto de aplicar na pele apresentado como aliviando pernas cansadas, inchadas ou pesadas destina-se a tratar «distúrbios circulatórios periféricos ligeiros». Por isso, não pode ser qualificado como cosmético. Só um produto com função cosmética primária, como um hidratante apresentado apenas como refrescante, pode continuar cosmético — e a autoridade nacional avalia caso a caso.
O manual não é lei nem posição oficial da Comissão Europeia. É uma recolha da prática dos Estados-Membros, usada como ferramenta pelas autoridades nacionais, que decidem caso a caso.
Um exemplo concreto: Akileine Gel Pernas Cansadas
Na Nossa Farmácia online, a 24.09.2026, o Akileine Gel Pernas Cansadas (150 ml) aparecia a 15,47 €, com «Receita Médica: Não» e sem registo de medicamento. A composição listada inclui ginkgo biloba, castanheiro-da-índia e rutina. É um cosmético, vendido ao lado de géis que são medicamentos.
Não afirmamos que este produto esteja fora da lei. Essa avaliação cabe à autoridade nacional. O exemplo serve para mostrar como ler a embalagem. Se diz «pernas cansadas» e não tem número de registo de medicamento nem folheto, não é um medicamento, e o que promete não foi avaliado como eficácia de medicamento.
«Cremes milagrosos» vendidos online: como verificar antes de pagar
Os cremes vendidos por anúncio seguem um padrão reconhecível, com desconto grande em destaque e nenhuma ficha oficial. O exemplo verificado a 24.09.2026 foi o Varicone, anunciado a 39 € com «desconto de 50 %» sobre 78 €, sem histórico de preço que mostre que alguma vez se vendeu a 78 €.
A composição declarada é óleo de amêndoas doces, óleo de semente de uva, extrato de hortelã-pimenta e extrato de aloé vera. Não há dosagens em mg. Não identificámos registo de medicamento nem de cosmético, e a página diz que o produto foi desenvolvido para «ajudar a reduzir os sintomas e melhorar a aparência das varizes».
Pelos preços de farmácia recolhidos no mesmo dia, o Varicone custa mais do que qualquer gel com registo de medicamento e mais do que um mês de comprimidos com folheto aprovado.
Cinco verificações que qualquer pessoa pode fazer
- Infomed. Procurar o nome na base de dados de medicamentos do Infarmed. Se não aparecer, não há registo de medicamento autorizado com esse nome.
- Dosagens em mg. Um medicamento declara quanto tem de cada substância. «Extrato de» sem número não permite comparar nada.
- Preço anterior. Um «-50 %» só significa algo se o produto se vendeu de facto ao preço riscado. Sem histórico, é um preço-âncora.
- Contagem decrescente. Serve para apressar a compra. Não acrescenta nenhuma informação sobre o produto.
- O que promete. Se promete fazer desaparecer varizes, promete mais do que qualquer folheto aprovado pelo Infarmed.
O que a publicidade a medicamentos não pode prometer
Em Portugal, a publicidade de medicamentos ao público rege-se pelo Estatuto do Medicamento, o Decreto-Lei n.º 176/2006, artigos 150.º a 158.º. Esta publicidade tem de ser verdadeira, objetiva e verificável, e limitada ao que consta da documentação aprovada.
Pela mesma lei, um anúncio de medicamento não pode:
- sugerir garantia de cura;
- atribuir efeitos que não estejam no folheto ou no resumo das características do medicamento (RCM);
- comparar-se com outros medicamentos ou substâncias;
- sugerir que não tomar o medicamento é perigoso para a saúde;
- sugerir uma posologia superior à recomendada;
- apresentar o medicamento como alimento, cosmético ou outro produto de consumo.
Na prática, Daflon, Cyclo 3, Thrombocid, Venosmil ou Hirudoid não podem ser anunciados com «elimina varizes». Um produto sem registo que o promete está a prometer mais do que a lei deixa a qualquer medicamento. Desconfie.
Quanto custam cremes e venotónicos em Portugal
Os preços abaixo foram recolhidos em farmácias online portuguesas e numa página promocional de venda online, no mesmo dia. Podem variar entre farmácias e ao longo do tempo.
Preços verificados a: 24 de setembro de 2026
Um mês de Daflon ou um mês de meias?
Contas feitas com as doses dos folhetos e das páginas do titular. O Daflon 500 mg, a 2 comprimidos por dia, dá 60 comprimidos por mês, por 23,15 €. A Diosmina Venosmil 1000 mg, a 1 comprimido por dia, dá 30 dias por 17,90 €. O Cyclo 3, a 3 cápsulas por dia, gasta a caixa de 60 em 20 dias, o que dá cerca de 33 € por 30 dias.
A meia gasta-se de outra forma. O MedlinePlus aconselha substituí-la a cada 3 a 6 meses, porque a compressão se perde com o uso.
Os preços das meias são da Loja Ortopédica online, na mesma data. Meia e comprimido não fazem o mesmo. Podem coexistir. Para quem compara pelo alívio dos sintomas, a diretriz europeia de cirurgia vascular (ESVS 2022) recomenda meias de pelo menos 15 mmHg no tornozelo para reduzir os sintomas de doença venosa (recomendação 9, classe I, nível B). As classes, as medidas e onde comprar estão no guia de meias de compressão e preços.
Na farmácia: o que confirmar com o farmacêutico
O farmacêutico conhece a ficha de cada produto e os medicamentos que já toma. Levar as perguntas certas poupa dinheiro e evita escolher pelo cheiro da embalagem.
- Isto é medicamento ou cosmético? Tem folheto aprovado pelo Infarmed?
- Para que sintoma exato está indicado — peso, dor, inchaço, cãibras?
- Quanto tempo devo usar antes de concluir que não resulta, e o que faço depois?
- Interage com os medicamentos que já tomo, ou há alguma contraindicação no meu caso?
- Posso usar na gravidez ou a amamentar?
- Há uma opção mais barata com a mesma substância?
A última pergunta tem resposta na tabela de preços. A diosmina isolada da Faes Farma custava 17,90 € por 30 comprimidos, abaixo das duas embalagens de Daflon. A composição não é igual, porque o Daflon junta diosmina e hesperidina.
Aqui encontra o que os folhetos oficiais dizem de cada produto, o que os estudos mediram, a fronteira entre cosmético e medicamento e preços com data. Serve para chegar à farmácia a saber o que pedir e o que esperar.
Esta página não diagnostica varizes nem escolhe um produto para o seu caso. Não substitui a leitura do folheto nem a conversa com o farmacêutico ou o médico de família. Também não lhe diz qual é o «melhor», porque faltam estudos que comparem estes produtos entre si. Para voltar ao início e escolher outro tema, use a página inicial do Pernas Leves.
Existe um «melhor creme para varizes»?
Não existe, nas fontes oficiais. Por isso não publicamos uma lista do «melhor creme para varizes», nem estrelas, nem opiniões de compradores. As fichas oficiais não permitem ordenar estes produtos por eficácia sobre as varizes, porque nenhum tem essa indicação.
O que se pode comparar com honestidade é o estatuto (medicamento ou cosmético), a indicação no folheto, a substância em mg e o preço. Isso está nas tabelas desta página, com data. Um ranking com um vencedor acrescentaria uma certeza que os estudos não dão, e é exatamente essa a técnica das páginas que vendem cremes por anúncio.
Sinais de alarme: quando o creme fica na gaveta
Um creme serve para desconforto conhecido e estável. Não para urgências. Há situações em que não se deve experimentar nada em casa.
- Uma perna inchou de repente, dói, está quente ou avermelhada, sobretudo numa só perna e na barriga da perna. Pode ser trombose venosa profunda. Ligar para o SNS 24 (808 24 24 24) ou ir à urgência.
- Falta de ar, dor no peito, tosse com sangue ou desmaio com dor na perna. Pode ser um coágulo que chegou ao pulmão. Ligar 112.
- Uma variz sangra, muitas vezes no duche quente ou durante a noite. Deitar, elevar a perna, fazer pressão firme no local e pedir ajuda urgente. É um risco maior em pessoas mais velhas que vivem sozinhas.
- Uma ferida no tornozelo que não fecha, ou pele que escureceu e ficou dura. É um sinal de doença venosa avançada, para o médico de família e não para um creme.
- Um cordão duro, vermelho e doloroso, ao longo de uma veia. Pode ser tromboflebite, que pede ecografia para excluir trombose.